terça-feira, 23 de março de 2010

UNDERGROUND

Um calor perturbador. Um quarto escuro e fechado. Nenhuma arrumação. Duas pessoas também pouco arrumadas: Um homem perfeito que se denomina meio roqueiro pós punk e ísta e eu, uma idiota a beira de um colapso mental prestes a me declarar apaixonada. Nós dois há menos de uma hora na segunda garrafa de vinho safra ruim:

- Vai ficar com essa porra só pra você?
- Gosta de Mecano, não gosta? Eu lembro que gosta.

Pensei uma ou duas vezes no que ele havia perguntado como que se fosse um problema de física. Tive a sensação de que estava sendo interrompida.

- Você gosta, num gosta?
- Hã? Gosto, gosto! Você me interrompeu.
- Você tá bem?
- Não, mas eu tô.

Nós rimos. A risada era involuntária e a minha resposta já era uma frase literária para mim. De praxe, eu diria. Ele me deu a garrafa e eu engoli o resto de vinho que havia na garrafa pensando numa resposta melhor.

- Mayakovsky também se suicidou. Tem Velho Barreiro?
- Quer um cigarro?
- Não fumo.
- Nem eu.

O enredo do dia em que nos conhecemos veio na hora a minha cabeça.
Pensava que aquelas garrafas seriam o banho de inspiração que eu precisava para me declarar.
Fazia mais de 2 anos que eu estava apaixonada pelo quase roqueiro. Tinha ímpetos de raiva em pensar que vivia tão próxima e tão... Ele morava na minha rua. Todas as noites ele saia para fumar e eu ficava da janela do meu quarto assistindo. Todos dias, como se fosse uma obrigação. Certo dia ele me viu, ficou olhando fixamente para o meu ser estático na janela por, pelo menos, 5 minutos, e então acenou para que eu fosse até ele. E eu fui.

- Quer um cigaro?
- Não fumo.
- Eu também não. Quantos anos você tem?
- Suficiente.
- Eu também.
- Costuma concordar sempre com seu interlocutor?

E foi sempre assim, fazia sentido algum. Faltava encher o centro. E talvez isso trouxesse a inspiração até mais que o Velho Barreiro que eu na verdade usava como desculpa para dizer besteiras. E eu queria dizer tanta coisa há tanto tempo.


[...]

2 comentários:

elfenqueen disse...

É uma história cheia de "quases" e isso, de certa forma, inspira.

Cícero Barbosa disse...

Mecano é bem bacana.